quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Quando eu for grande quero contar histórias...


Comecei a “ler” livros à minha filha mais velha quando ela tinha cerca de um ano. Agora que já tem seis anos, uma história à noite, todas as noites tornou-se mais do que uma obrigação, uma necessidade. E esta necessidade de contar/ouvir uma história é partilhada na relação mãe/filha.





Claro que às vezes o cansaço de um dia de trabalho empurra-nos para a inércia mas um pequeno esforço nosso traz geralmente uma recompensa maior. Nos tempos de hoje em que a vida é tão cheia de exigências usurpadoras do tempo que devia ser também dos filhos, cultivar com mimo 10 a 15 minutos para a história de todas as noites proporciona momentos mágicos de cumplicidade. Entrelaça-se um elo afectivo entre mãe e filha. E é também um momento de redenção...para os pais.

Ler é muito bom. Contar histórias é melhor. Contá-las aos nossos filhos constitui um privilégio. E assim deitamos à terra a semente para termos futuros bons leitores. Mostramo-lhes assim como se abrem as portas da imaginação para outros mundos, onde a magia é possível e os medos são vencidos.

Daniel Pennac, em Como um Romance, tem um excerto delicioso sobre este feliz triângulo amoroso pai -filho-livro:

“ (...) não era nossa intenção impor-lhe a leitura como uma obrigação. Pensámos, acima de tudo, no prazer que ele daí poderia tirar. Durante os primeiros anos estávamos positivamente em estado de graça. O deslumbramento absoluto perante esta nova vida transformou-nos numa espécie de génios. Para ele, nós éramos os contadores de histórias. Contávamos-lhe histórias desde que começou a falar. Era uma aptidão que desconhecíamos em nós. O seu prazer inspirava-nos. A sua felicidade animava-nos. Em honra dele criámos personagens, encadeámos episódios, refinámos as armadilhas... À semelhança do que o velho Tolkien fazia para os seus netos, inventámos um mundo para ele. Na fronteira entre o dia e a noite, éramos o seu romancista.

Se não tínhamos o talento, se lhe contámos histórias que outros criaram, e mesmo assim mal (...) isso pouco importa... E mesmo se afinal não contámos coisa nenhuma, se nos limitámos a ler em voz alta, éramos os seus romancistas, só dele, os contadores de histórias exclusivos, por quem, todas as noites, ele enfiava o pijama do sonho antes de adormecer entre os lençóis. Mais do que isso, éramos o Livro.”

Daniel Pennac, Como um romance, ed. ASA, 1992, pp. 15-16.


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