segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Biblio-quê?

“A imagem da velhinha de coque nos cabelos e dedo em riste fazendo “shiii”, que permeia o imaginário popular como modelo fiel da imagem dos bibliotecários é tão antiga quanto a própria Biblioteconomia". 




Este é um excerto de um trabalho muito interessante de um estudante brasileiro de Biblioteconomia, Moreno Albuquerque de Barros, realizado em 2005, sobre os esteriótipos atribuídos aos “ratos de biblioteca” (outra expressão recorrente quando se pensa nestes profissionais). Pois bem, depois de ler este trabalho e de concordar em certos pontos sinto-me coagida a esclarecer alguns pontos:
 1. Sou bibliotecária.
 2. Não uso o cabelo irrepreensivelmente apanhado no alto da nuca;
3. Falo alto e rio ainda mais alto ( a teoria do “chiuu!” de dedo em riste aqui não se aplica);
4. Ainda não estou na meia-idade, sujeita aos achaques da menopausa;
5. Não sou solteirona e não sofro do mau-humor crónico das mal-amadas, das que só têm os livros...
6. As cores do meu guarda-roupa não oscilam apenas entre o cinzento e o preto, com algumas incursões mais ousadas pelo castanho... Não, a minha cor preferida é o cor de laranja.
 7. Não sofro de doenças respiratórios devido ao pó ou ao mofo dos míticos “livros antigos”.
Falando agora a sério, é uma profissão ainda associada à austeridade monástica dos antigos escribas e dos primeiros guardiães de livros mas que em pleno Séc. XXI adquire contornos bem diferentes. Hoje, os livros já não se empilham em estantes fechadas a sete chaves (pois é, não tenho nenhum porta-chaves no trabalho). As estantes abrem-se aos leitores que usufruem de livre acesso. As bibliotecas são hoje desenhadas por arquitectos para serem claras, arejadas e alegres. Para seduzirem e acolherem as crianças.


Se o imaginário popular ainda domina é porque não é uma profissão muito conhecida. O que fazemos? Passamos o dia de óculos na ponta do nariz, enfiados em catacumbas cheias de livros? Passamos dias a limpar o pó a edições raras? A verdade é que esta é sobretudo uma actividade de retaguarda, de apoio a quem nos solicita informação e conhecimento para desenvolverem o seu próprio trabalho. Pesquisamos, investigamos e alimentamos o trabalho de outros. E fazêmo-lo com satisfação, até com um certo espírito de missão. É bom o contacto com o público-leitor e sobretudo conseguir dar-lhe a informação que procura.


É uma profissão que exige de nós uma aprendizagem contínua, o contacto com livros, CD-roms e sites novos, criatividade para fazer face aos desafios e às possibilidades fascinantes que as novas tecnologias trazem à nossa actividade. Estamos numa fase da nossa profissão em que um mundo novo de potencialidades se abre diante de nós e nos leva ao quebrar de hábitos ancestrais, talvez à reconversão da profissão.




Hoje, uma biblioteca já não é um espaço físico fechado, já não é delimitada por quatro paredes, está aberta ao mundo através da Internet e do trabalho em rede. E o nosso trabalho é hoje muito mais fascinante. Abaixo os Velhos do Restelo e os fatalistas que acham que a Internet vai acabar com a Biblioteca enquanto instituição. A Internet é um mundo vastíssimo de conhecimento, onde se encontra o fiável, o duvidoso e o grotesco, onde os caminhos são mais que muitos e nem sempre nos levam onde queremos. O bibliotecário de hoje tem de aprender esses caminhos virtuais, desenhar os “mapas” e disponibilizá-los aos leitores. Muitos das solicitações que recebo no meu trabalho é para que faça pesquisas na Internet. Melvin Dewey, quando em 1876 escrevia no Library Journal “...os dias do bibliotecário como um rato entre livros mofados, precisam acabar...”, certamente não imaginaria a evolução que esta profissão iria sentir.
Afinal, ao contrário do que veiculam os esteriótipos, esta é uma profissão “fixe”. :)

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