domingo, 11 de março de 2007

Histórias com casinha de chocolate mas travo amargo


“Somos a melhor civilização que, desde sempre, existiu para as crianças. Não matamos as deficientes (como outros antes de nós), não as abandonamos testando a paternidade através da sua capacidade de sobrevivência (como os gregos), e não as entregamos a amas de leite (como fazia a grande maioria dos parisienses até aos séculos XVII e XVIII)”.



In Eduardo Sá e Maria João Cunha, Abandono e Adopção: o nascimento da família. Coimbra: Almedina,1996. pp.33.





Pois é, mas a bárbárie dos que viveram noutros tempos não pode nem deve atenuar as nossas consciências e fechar os nossos olhos. Continuamos a viver numa sociedade onde a negligência e o mau-trato infantil atingem proporções alarmantes. Basta ouvir os telejornais, ler os jornais....sem contar com aquelas que sofrem em silêncio, que não chegam às manchetes dos jornais.

A Paula tem sete anos e está numa instituição de acolhimento em regime de internato. Abandonada pela mãe, maltratada pelo pai, pede continuamente à sua educadora que lhe leia a história de Hansel e Gretel, João e Maria na versão portuguesa:

Era uma vez João e Maria, filhos de um pobre lenhador e de uma madrasta muito má. O pai não os podia sustentar e a madrasta detestava-os. Pressionado pela pobreza e pela maldade da mulher, o lenhador resolveu, um dia, tomar as duas crianças pelas mãos e abandoná-las no meio de uma densa floresta. Mas o Joãozinho, esperto como era, marcou o caminho com pequenas pedras e assim os meninos acharam facilmente o caminho de volta a casa. Mas na vez seguinte, o pai tomou outro caminho e evitou que o filho marcasse o caminho com pedrinhas. Maria estava aflita mas João sossegou-a, confessando que estava a deixar migalhas de pão ao longo do trajecto. No entanto, os pardais comeram as migalhas e os meninos ficaram sozinhos e perdidos no meio do desconhecido.

Alguns dias depois os irmãos avistaram um pássaro branco que os guiou até uma grande clareira. Esfomeados e assustados, foi com enorme alívio e excitação que avistaram uma deliciosa casinha de chocolate.

Começavam a depenicar timidamente as esquinas da casa quando de dentro desta saiu uma velhinha de aspecto carinhoso que os convidou gentilmente para entrar. Em breve João e Maria perceberam que as aparências iludem. A velha era afinal uma bruxa que fazia, como engodo, casinhas de chocolate para atrair crianças que depois engordava e comia.

Mas os dois irmãos, unidos, não desistiram: à medida que iam crescendo, iam percebendo como se livrar da bruxa má. Conseguiram finalmente fugir com os tesouros escondidos da bruxa e encontraram rapidamente o caminho de casa. A madrasta tinha morrido e o pai lenhador, só e arrependido, ficou muito contente de os ver de novo. Com as riquezas trazidas da casa da bruxa viveram prósperos e felizes para sempre".

Existe um paralelo entre os protagonistas deste conto tradicional e a história de Paula. Tal como na vida de muitas outras crianças, também neste caso os contos de fadas falam de uma forma pessoal e profunda: a identificação com estes personagens permite-lhes um amparo para a sua dor, a sensação de não estar só e de ser compreendido. É a sabedoria secular a transmitir a confiança de saídas e soluções.

Numa interpretação possível desta história, entre muitas outras, percebemos que algumas crianças são vítimas de abandono familiar. Por vezes, as condições precárias (sobretudo em termos de afecto e de valores) em que vivem cria nelas a necessidade de deixar prematuramente a casa paterna. Nem todos os pais têm capacidade e disponibilidade emocional para o serem de facto. São pobres, como o lenhador, sofrem de uma carência que não se traduz em falta de dinheiro... o tesouro que no fim se descobre corresponde a uma riqueza sobretudo interior.

A experiência destes Joões e Marias é extremamente dolorosa, razão porque tentam o caminho para a casa de onde foram expulsos, pois querem acreditar que nada se repetirá. Carregam uma bagagem demasiado pesada e injusta para a idade que têm: a culpa e a auto-responsabilização. Estas crianças acreditam frequentemente que são culpadas de situações que as transcendem por completo e, na sua inocência, acreditam-se capazes de uma função reparadora (“se eu lá estivesse os meus pais melhoravam”), numa ilusão mágica de cura através da sua própria presença e sacrifício.

Os sentimentos de perda, solidão e vazio podem ser de tal forma esmagadores para quem ainda agora aprende a viver que é mais fácil o refúgio na negação da situação traumatizante e a esperança, sempre a esperança do retorno ao lar consertado e já funcional.

As crianças que acabam institucionalizadas apercebem-se muito cedo da dupla face das coisas e das situações: uma casinha de chocolate pode não ser tão doce como parece, quase tudo tem um lado bom e um lado mau. Tal como no conto, o tempo passa e as crianças amadurecem, descobrindo em si forças e mecanismos de superação das dificuldades vividas. Fortalecidas no seu interior, a parte má da história parece menor e mais suportável (até a madrasta morreu) e a felicidade é reencontrada nas suas próprias riquezas.

Uma história, a tradicional, é sobejamente conhecida por todos. A outra, a de Paula, é contada por Pedro Strecht, no seu livro Crescer Vazio: Repercussões Psíquicas do Abandono, Negligência e Maus Tratos em Crianças e Adolescentes. Refere-se à sua experiência no tratamento terapêutico com crianças de instituições. E demonstra como os contos infantis podem ajudar e acompanhar as crianças na compreensão e superação dos seus problemas e traumas, por mais graves que estes sejam.

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