terça-feira, 20 de março de 2007

O Harry Potter como gesto de amor

"I try to laugh about it
Cover it all up with lies
I try and
Laugh about it
Hiding the tears in my eyes
'cause boys don't cry
Boys don't cry"


The Cure, Boys Don't Cry


O André, de 14 anos anos, vive agora numa instituição de acolhimento, por abandono do pai e doença da mãe, alcóolica e prostituta, depois de uma infância marcada pela negligência, pela pobreza e por um ambiente viciado. No seu diário é curioso e até comovedor perceber os laços fortes que apesar de tudo o ligam à figura materna e como o facto de a mãe lhe oferecer os livros do Harry Potter representa para ele um gesto de afecto, uma prova de que, apesar da vida quotidiana desregrada, ela se importa.

Um relato impressionante de quem foi obrigado a crescer demasiado cedo. Este diário é, quanto a mim, um acto de generosidade, e maturidade do André. Um menino perdido, sem Peter Pan, mas com Harry Potter e bom fundo. Um menino como muitos outros por aí.


O DIÁRIO DO ANDRÉ
Excertos de um Diário de um rapaz de 14 anos

“2 de Janeiro

Não sei bem porque é que decidi escrever este Diário. Se calhar por nenhuma razão especial, mas porque sinto a necessidade de partilhar o que sinto e o que sou. Se alguém ler este diário, claro, mas tenho a esperança que sim, embora espero que não seja já.


Chamo-me André. Tenho 14 anos. E estou desde há perto de seis meses a viver num Lar. Porquê?


É a pergunta que de certeza está nas vossas cabeças... porque um belo dia a minha Mãe não recuperou bem da ressaca do que tinha bebido na véspera, e ficou desmaiada durante uma data de horas. Quando eu cheguei da escola ela ainda estava caída no chão e eu assustei-me. Liguei logo para o 112 e chamei os vizinhos.


A ambulância chegou em menos de dez minutos e levaram a minha Mãe para o hospital. O zumzum foi mais que muito. As vizinhas, que habitualmente não ligavam muito a estas coisas, ou seja, ligavam para dizer que a minha Mãe era uma incapaz, uma bêbeda e uma mulher de má vida, vieram logo proteger-me a dizer que eu era um “coitadinho” e que alguém iria tomar conta de mim.


“E a minha Mãe?” – perguntei eu, sem saber muito bem o que se passava. Percebi pelo olhar delas que os tempos iam mudar e que alguma coisa nova me iria acontecer.


Não tenho pai. Quero dizer, tenho, porque toda a gente tem um, a não ser agora estas coisas dos clones e não é o meu caso, mas nunca o conheci. Sei que viveu com a minha Mãe, pelo menos o tempo suficiente para me fazerem, e que depois a abandonou, ao que dizem corrido pelo meu tio, depois de o apanhar a dar uma sova de criar bicho à minha Mãe, o que não era propriamente uma raridade. Bebia, ficava furioso quando o clube dele perdia, ficava doido de alegria quando o clube dele ganhava, andava de emprego em emprego, ou de desemprego em desemprego, rosnava com toda a gente e parece que tinha um feitio impossível.


Nunca tentou saber de mim nem eu dele, diga-se de passagem. Um dia, uma senhora da segurança social, muito simpaticamente, tentou aligeirar as nossas relações dizendo que “vivíamos de costas um para o outro”. Coitada. Entendo a intenção dela, mas de costas não era porque eu nem sequer sei onde ele pára. Nunca soube. Nem costas nem frente. Desapareceu da minha vida onde, aliás, nunca chegou verdadeiramente a aparecer. A minha Mãe sempre evitou falar dele e, por exemplo, sei vagamente que tenho uns avós lá para o Norte, mas também são para mim desconhecidos, como toda a família do lado do meu Pai. Já ouvi dizer que está preso, que emigrou, que tem um bom emprego e família... sei lá. Basou da minha vida e é o que chega.


Mas voltando ao assunto: quando levaram a minha Mãe para o hospital ouvi várias conversas entre as pessoas que entravam e saíam, telefonemas. Embora ninguém me desse cavaco sabia que estavam a falar de mim. Assim, por sussurros, estilo “pois, e agora é preciso dar uma solução, sabe, ao problema... Pois... Hum... é... sabe a quem me refiro... não pode... não, sozinho, não... duvido que ela... pois...”.


Não era preciso ser um génio para perceber o que eles estavam a pensar. E o que eu pensava confirmou-se. Depois de um bom par de horas à espera, sentado no sofá e esburacado da minha casa, lá me deram uma coca-cola e umas bolachas – perceberam que eu não andava propriamente a abarrotar de comida -, e tive tempo para ouvir alguns comentários menos simpáticos para com a minha Mãe e para com a desarrumação e confusão que a nossa casa era. Não é que não tivessem razão – até tinham. A nossa casa era um esterco, uma porcaria pegada - o único sítio onde me sentiarazoavelmente bem era no meu mini-quarto, sempre tinha um cantinho para mim e fazia a cama todos os dias -, mas irritou-me ouvir aquelas pessoas, algumas das quais nunca me tinham visto mais gordo, outras que já nos conhecem há muito tempo mas que nunca se lembraram de nos perguntarem se precisávamos de ajuda. Críticas, críticas, críticas, mas o que é certo é que a minha Mãe, com todos os seus defeitos, muito álcool e a viver de expedientes com os homens que metia lá em casa, tentou criar-me e acho que conseguiu. Pelo menos aprendi que é feio roubar, matar e sacanear os outros. E o que ela fazia era com ela. Pelo menos dava para me pagar as coisas da escola e até para me trazer um livro de vez em quando. Fui das primeiras pessoas a ter o Harry Potter em Portugal, porque a minha Mãe o tinha reservado numa livraria que há ao pé de nós, do Senhor Gomes, de maneira que tive-o logo no primeiro dia. Ora toma! Quantos se podem gabar disso?”



Este diário é da autoria do pediatra Mário Cordeiro.


Excerto retirado do Manual de Boas Práticas -Um Guia para o Acolhimento Residencial das Crianças e Jovens, Instituto da Segurança Social, 2005.

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