quinta-feira, 5 de abril de 2007

A mulher selvagem



“ Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer os cabelos e o usamos para esconder nossos sentimentos.  No entanto, o espectro da mulher selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem  decididamente quatro patas".

Retomo hoje o tema de um post anterior: o livro de Clarissa Pinkola Estés, sobre os Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem.


Todos os livros que falem de mitologia, contos de fadas ou tradicionais, lendas, fantasia me seduzem. Este atraíu-me pelo título (as palavras evocam uma imagem muito sugestiva... mulheres que correm com os lobos...). O subtítulo deu em mim o tiro de misericórdia: “Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem”. Fiquei imediatamente em posição de alerta: virei o livro numa rotação ofegante e devorei o texto da contracapa. Lá estavam as histórias tradicionais:

“Através da interpretação de 19 lendas e histórias antigas, entre elas as de Barba-Azul, Patinho Feio, Sapatinhos Vermelhos e La Llorona, a autora identifica o arquétipo da Mulher Selvagem ou a essência da alma feminina, sua psique instintiva mais profunda.”


Ali se estabelecia uma relação surpreendente entre diversos estados de instabilidade e debilidade passíveis de serem sentidos pelas mulheres de hoje, as histórias de outrora e a imagem arrebatadora da mulher selvagem:



“Sensações de vazio, fadiga, medo, depressão, fragilidade, bloqueio e falta de criatividade são sintomas cada vez mais frequentes entre as mulheres modernas, assoberbadas com o acúmulo de funções na família e na vida profissional. Esse problema, no entanto, não é recente, acredita a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés. Ele veio junto com o desenvolvimento de uma cultura que transformou a mulher numa espécie de animal doméstico (...) Técnicas da psicologia junguiana e algumas formas de expressão artística ligada ao corpo podem ajudar na tarefa, mas a compreensão da natureza dessa mulher selvagem, com todas as características de uma loba, é uma prática para ser exercida ao longo de toda a vida.”

Agora a minha curiosidade galopava e na minha mente imagens sucediam-se como uivos à lua. Rendida, rasguei com o olhar as primeiras palavras, linhas, capítulos. Partilho convosco retalhos desta corrida a quatro patas:



“O título do livro, Mulheres que correm com os lobos, mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem, foi inspirado em meus estudos sobre a biologia de animais selvagens,em especial os lobos. Os estudos de lobos Canis Lupus e Canis Rufus são como a história das mulheres, no que diz respeito à sua vivacidade e à sua labuta.

Os lobos saudáveis e as mulheres saudáveis têm certas características psíquicas em comum: percepção aguçada, espírito brincalhão e uma elevada capacidade para a devoção. Os lobos e as mulheres são gregários por natureza, curiosos, dotados de grande resistência e força. São profundamente intuitivos e têm grande preocupação para com seus filhotes, seu parceiro e sua matilha. Têm experiência em se adaptar a circunstâncias em constante mutação. Têm uma determinação feroz e uma extrema coragem.

No entanto as duas espécies foram perseguidas e acossadas, sendo-lhes falsamente atribuído o fato de serem trapaceiros e vorazes, excessivamente agressivos e de terem menor valor que os seus detratores. Foram alvo daqueles que preferiam arrasar as matas virgens bem como os arredores selvagens da psique, erradicando o que fosse instintivo, sem deixar que dele restasse nenhum sinal.A atividade predatória contra os lobos e contra as mulheres por parte daqueles que não os compreendem é de uma semelhança surpreendente.

Foi por aí que o conceito do arquétipo da mulher Selvagem primeiro se concretizou para mim:no estudo dos lobos. Estudei também outras criaturas como, por exemplo, os ursos, os elefantes e os pássaros da alma-as borboletas. As características de cada espécie fornecem indicações abundantes do que pode ser conhecido sobre psique instintiva da mulher.(...)
 
Chamo-a Mulher Selvagem porque essas exatas palavras, mulher e selvagem, criam llamar o tocar a la puerta,a batida dos contos de fadas à porta da psique profunda da mulher. Llamar o tocar a la puerta significa literalmente tocar o instrumento do nome para abrir uma porta. Significa usar palavras para obter a abertura de uma passagem. Não importa a cultura pela qual a mulher seja influenciada, elacompreende as palavras selvagem e mulher intuitivamente.(...)

A tudo isto associa-se a arte e o poder criativo: “O arquétipo da Mulher Selvagem, bem como tudo o que esta por trás dele, é o benfeitor de todas as pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras, de todas as que procuram e as que encontram, pois elas todas se dedicam a inventar, e essa é a principal ocupação da Mulher Selvagem. Como toda arte, ela é visceral, não cerebral. Ela sabe rastear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial a saúde mental e espiritual da mulher.“

Daí o facto de esta corrente junguiana recomendar a arte-terapia para a mulher recuperar e resgatar a forma psíquica saudável, descobrindo a sua verdadeira identidade e aprendendo a amar-se e a assumir-se perante a sociedade, tudo, através do acto criativo.


A quem esteja interessado:

O livro: Estés, Clarissa Pinkola - Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem - Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1994. (Comprei na FNAC.)

O site: Wild Wolf Women of the Web constituído por uma “matilha” de mulheres de todo o mundo que se guiam pelas crenças veiculadas neste livro: http://www.wildwolfwomen.com/:


"Where the wolves are sometimes wild
and the women are never tame"

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