terça-feira, 25 de outubro de 2011

Um poema gigante de José Jorge Letria


Assim Nasce o Poema
ou as Palavras à Procura de um Poeta


José Jorge Letria


Juntaram-se as palavras
num largo círculo de sons,
agitadas, cantantes e nervosas,
sem saberem ao certo como haviam
de passar o seu tempo,
talvez a cantar,
talvez a brincar,
fazendo trocadilhos sem parar,
mesmo que não lhes desse,
nesse jogo, para rimar.


Foi então que uma delas
arregalou os olhos,
luminosos como sílabas,
e sugeriu sem hesitar:
“Por que não pedimos
a um poeta, sim, a um poeta,

que faça connosco um poema
em que todas
possamos entrar?”


As outras palavras,
suas companheiras
em tantas loucas andanças da fala,
em tantas aventuras da escrita,
gostaram muito da ideia
mas ficaram sem palavras
no instante da resposta.
De entrar num poema
quem é que não gosta?
Todas as palavras gostam,
querem uma aposta?


Uma palavra houve,
que era esguia e gutural
e que, erguendo-se num repente,
disse somente: “Um poema sim,

desde que não seja banal”.
As outras palavras concordaram
e todas acharam
a exigência natural.
Um poema sim, banal não
que, para banal,
já basta o arsenal
de tudo o que não vale
e se transforma em televisão.

Havia nesse grupo
palavras para todos os gostos,
desde as breves e tristes
até às longas e sonantes,
palavras belas e extensas
num animado festival
de vogais e consoantes.
Havia também as palavras

cansadas e soturnas
que se gastam e se esgotam
nas imensas conversas nocturnas.
E outras havia coloridas,

daquelas que servem
para dar cor e tempero
à história das nossas vidas.
Todas se puseram de acordo.

Faltava agora resolver
a questão essencial:
encontrar o tal poeta
que não escrevesse
um poema banal,

mesmo que não fosse
um poeta da moda,
daqueles que são supostos
valer pela poesia toda.

Uma palavra insinuante,
daquelas que gostam
de levar tudo adiante,
mostrou grande sabedoria
ao sugerir que buscassem
o poeta numa qualquer antologia.
Mas logo outra palavra,
mais sibilina e discreta,

se apressou a perguntar:
“E quem nos diz a nós
que mora nela o nosso poeta?”


Questão justa e oportuna
que pôs todas a pensar.
Talvez o melhor fosse
cada uma a seu jeito
começar a procurar
um poeta que tivesse
a poesia a bater dentro do peito,
que tivesse gosto e engenho
para construir por fim
um poema quase perfeito,
um poeta cujo talento
fosse, usando a linguagem
como quem faz uma viagem,
conseguir casar o olhar
com a voz do sentimento.

Eram diversas as palavras
como as pessoas afinal,
mas mostraram estar de acordo
quanto ao fundamental:
teria de ser alguém
que amasse tanto as palavras
que com elas criasse um mundo
em que todas combinadas
fossem estrelas iluminadas
com uma música tocando em fundo.

Sim, porque a poesia
também é musical,
tem uma música lá dentro,
tem uma orquestra de vento

que faz com que um poema
nunca tenha outro igual
e que ao ser escrito
resista à terrível tentação
de ser corriqueiro e banal.

Houve então uma palavra
com cara de lua cheia

que se pôs num canto a chorar,
dizendo, triste, para as outras:
“Nesse poema não posso entrar
porque sou gorda e feia
como uma noite sem luar”.


E logo uma palavra bonita,
elegante e escultural
lhe afagou os cabelos
e lhe disse baixinho ao ouvido:
“Não digas coisas sem sentido
porque o poeta ideal
é o que tem a magia
que torna o feio belo

e o transforma num castelo
onde o som monumental
das palavras renascidas
reinventa o carnaval
das que ficaram esquecidas
e encontram no papel
novos sons e novas vidas”.

A palavra que era feia
e temia não ter espaço

para entrar no poema
deu à bonita um abraço
e logo a seguir um presente
que cheirava a alfazema
e tinha uma estrela no laço.

Faltava, pois, encontrar o poeta
que não escrevesse
um poema banal
e que fosse o amigo certo

para esse encontro especial
entre os sons e os sentidos,
entre os nomes sonhados
e os lugares pressentidos,
entre as ondas e as dunas
de sítios há muito esquecidos,
entre a alma e a voz,
aliança misteriosa
que mora dentro de nós

e que faz da poesia
a mais secreta magia
que não nos deixa ficar sós.


Tinha de ser um poeta
capaz de falar com o mar,
com duendes e unicórnios,
com bruxas e com fadas,
com histórias de encantar
e que nesse estranho novelo
que é o mapa da distância
encontrasse a chave certa
que abre as portas da infância.

Tinha de ser, afinal,
um poeta adulto e menino
com um livro soletrado
pela boca do destino,
um poeta alegre e triste,
sempre de palavra em riste
para vencer o desatino
que é a escrita alucinada
numa página virada
por um sopro sibilino
daqueles que acordam medos
quando se é pequenino.

Tinha de ser um poeta
capaz de decifrar
o enigma do vento
numa caixa de brincar,

capaz de nas palavras
se deitar a adivinhar
as coisas que os poemas
nunca querem nomear
por saberem que o mistério
é que as faz desabrochar

como corolas de espuma
numa onda a rebentar.


Tinha de ser um poeta
que fosse irmão e amigo
e que guardasse na escrita
um saber tão antigo
que lhe desse,
sem que o soubesse,
para mesmo na maior paz
poder enxergar o perigo
como uma avó que viesse
afugentar a cantar
os fantasmas ao postigo.


E as palavras em círculo
eram mais do que palavras.
Eram também aquilo
que podiam nomear,
fosse uma ave ou rio,
uma viola ou um tear,
fosse uma rosa de estio
ou um cristal de luar,
fosse um armário vazio
com vozes a sussurrar,
fosse a tremura do frio
numa boca a murmurar.

E as palavras unidas
em busca do tal poeta
sentiram uma estranha aragem
vinda de uma porta aberta

e encheram-se de coragem
para fazer da linguagem
a poesia que enfim desperta.


Descobriram desse modo
que se podiam juntar
com o prazer sem nome
de quem gosta de brincar
e que desse acto nascia
poesia feita para rimar,
como quem casa palavras
que não se querem separar.

As belas e cintilantes
convidaram as menos belas
e abraçadas a elas
buscaram lugares distantes
e tornaram-se sentinelas
com o porte de almirantes
e depois de se juntarem

nada ficou como dantes.


E descobriram também
que unindo-se mudavam
o valor e o sentido
daquilo que pronunciavam.
Elas eram o que diziam,
mas também podiam ser
outras coisas, outros nomes

que apenas existiam
quando alguém pegando nelas
tentava descrever
as coisas que existiam
antes do mundo nascer.
E foi assim que um verso,
por ser verbo e por ser vida,
quis resumir o universo
numa frase apetecida.
E veio então o poeta
que não podia ser banal
para escrever um poema
com sentido universal

e veio com ele essa voz
que não podia ter igual
e que inundou de magia
a praça e o areal,
repartindo poesia
como quem dá pão e sal
e faz da sílaba semente
e do verso cereal.

Sentaram-se então as palavras
sob o alpendre da noite
e viram um homem curvado
com um livro entreaberto
que parecia vir exausto
de um longínquo deserto,
que é o lugar onde a voz
fica sempre a descoberto
entre a areia e o luar
com sede de um rumo certo.

“És tu o tal poeta
de que estamos a falar?”
-perguntou uma palavra
muito amiga de perguntar.


E o poeta respondeu:
“Não sei se serei ou não.
O que sei é que não quero
fazer a viagem em vão
pois tenho um livro entre mãos
e quero que deste encontro
nasça o poema capaz
de pintar as horas más
com as cores essenciais,
azuis, vermelhos e brancos,
e que não acabem mais
estas vozes que na escrita
são palavras e sentidos
de uma alegria infinita.

Murmuraram as palavras
em tom de assentimento.
Estava encontrado o poeta,
pintor sem usar paleta,

que havia de as deixar
ao abrigo do esquecimento,
entre as carícias do luar
e os ásperos segredos do vento.

As longas e as breves,
as bonitas e as feias
ganhavam uma alma nova.
Chegara enfim o poeta
que as iria pôr à prova.



As palavras eram cores
no quadrado de uma tela
com crianças e flores
a acenarem à janela
e os sentidos que tinham
já mudavam no papel
como se a mão do poeta
usasse somente pincel.

Juntaram-se as palavras
no som de uma nova voz
para lembrar que a poesia
tem um espaço em todos nós,
não dependendo de idades,
nem tão pouco de lugares,
por ser feita com a matéria
dos aromas e dos olhares.


Juntaram-se as palavras
numa roda encantada
em que a mão do poeta
como a asa da borboleta
nunca ficava cansada,
inventando as imagens
e as secretas paisagens
que salpicam de luz a madrugada.

Quando as palavras despertaram
estava o livro acabado
e quase todas ficaram
com os sentidos que encontraram
num verso bem burilado,
enquanto os meninos sonhavam
ser os duendes da noite
que versejando encantavam.

E o fio de tecer segredos
que transforma os brinquedos
é a linha com que se escrevem
os mistérios e os medos
que o poema quer guardar
como um tesouro invulgar.


As palavras cintilantes,
rosas de um raro jardim,
aprenderam como é bom
poder viver assim
na página de um livro
onde por mais que se tente
não cabe a palavra Fim,
pois o que acaba em ti
há-de continuar em mim,
nesse acto de magia
que ao som de um bandolim
mostra as asas carmesim
e se chama Poesia,
neste caso dada à rima,
oferenda para uma estrela
que vela por ela, e por nós, lá em cima.
 XVIII Encontro de Literatura para Crianças,

Edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010. pp. 37-48

Ilustração de Hazel Adams

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