quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Cântico da mulher grávida


Selda Marlin Soganci


"Mexes-te no meu ventre. Estarás satisfeito ou impaciente, meu filho? Quem me dera saber!

Serás belo, belo como o teu pai. Terás o corpo esbelto como os pinheiros nos montes e os olhos meigos como as corças da floresta.

A tua bondade será cristalina como a água das fontes e a tua inteligência vigorosa como a brisa que vem do mar.

Mas ai! se não fores perfeito?...Ai! se te faltarem as mãos, um braço, ou a luz dos olhos?...Ai! se te olharem com desprezo ou com fingida piedade...

Chorarei então, meu filho, mas amar-te-ei ainda mais. O meu coração só velará por ti e encontrará sempre palavras para te confortar.

Plantei no meu jardim macieiras, pessegueiros, graminha verde, flores garridas.

Procurei enfeites de cor e de alegria, agasalhos macios, tecidos leves e transparentes.

Meu filho, como eu te amo já! Como quero a tua felicidade! Hei-de ensinar-te lindos versos; inventar histórias maravilhosas e embalar-te com as mais doces canções.

Doem-me os seios! Dor abençoada! É o leite que tu beberás!

Brilha sol! Abri-vos rosas! Macieiras, pessegueiros, árvores todas do meu jardim, flori!

Pássaros, cantai! Rasgai a terra, águas das fontes! Alma, coração, rejubilai!

O meu filho vai nascer!"

Ilse Losa

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

ERC publica estudo "Boom Digital? Crianças (3-8 anos) e Ecrãs" para download gratuito



"Boom digital? Crianças (3-8 anos) e ecrãs" foi lançado neste Dia da Internet Segura, assinalado ontem, com os resultados do projecto Crescendo entre Ecrãs, coordenado por Cristina Ponte para a ERC:

"Com um trabalho de campo realizado em 2016, o estudo visou promover o conhecimento sobre como as crianças mais novas estão a crescer em contacto com a tecnologia digital existente à sua volta, os usos que fazem dos ecrãs, as competências e literacias que vão adquirindo, as situações de dano que podem experimentar e os modos como as famílias intervêm nessa socialização digital. Esta teia de envolvimento combina expectativas, preocupações e pressões sociais".

Faça download AQUI.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"Is A Worry Worrying You?": a minha resenha de um livro para crianças preocupadas e ansiosas (e para pais que querem ajudá-las)



"Is A Worry Worrying You?", de Ferida Wolff e Harriet May Savitz, com ilustrações de Marie Letourneau, foi-me cedido pela Netgalley e pelo editor, para que eu fizesse uma apreciação honesta deste livro. Não há de momento edição em português.

Publiquei a minha opinião no Goodreads com 5/5 estrelas e a seguinte "review":

"This is a good book to cheer up an anxious child, worried about real things like something at school, with her friends, in her family or some imaginary danger…

The worry/anxiety is personified by a stubborn monster who insists on being on every page.

The authors teach readers how to overcome worries giving solutions to silly situations/worries. Through humor children learn how to deal with their worries, real or imaginary. (But we have to be careful so that the child doesn’t think we are making fun of her worries).

Illustrations are dark and a bit spooky without losing their humorous feature. They make perfect sense and complement perfectly the text. I like that the text starts with a simple definition of worry, easy for the child to understand.

Never underestimate children’s anxieties as unimportant or simple nonsense. Grab this book, read it with them and talk about what a worry is and how to deal with it. To talk about it is the most important thing. Don’t let them alone with their fears. Help them solve them. Start with this book.

Adult worriers can also gain from reading it: an inevitable smile and some simple truth can´t harm anyone.

I received this book as an eARC from the publisher and NetGalley in exchange for my honest review".






segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

"Santa's Countdown to Christmas: 24 Days of Stories": a minha resenha de um calendário do advento muito divertido



"Santa's Countdown to Christmas: 24 Days of Stories ", de Kim Thompson, com ilustrações de Élodie Duhameau foi-me cedido pela Netgalley e pelo editor, para que eu fizesse uma apreciação honesta deste livro. Não há de momento edição em português.

Publiquei a minha opinião no Goodreads com 4/5 estrelas e a seguinte "review":


"Everybody knows advent calendars. My kids love those with chocolate. But they will love this one too: an advent calendar of Christmas stories. These tell us how Santa, the elves, and the reindeers are preparing themselves for the big day, Christmas day. The stories, thought extremely short, are very amusing. The illustrations help to turn this book into a very fun reading. I think it will add to the pleasure and excitement of kids waiting for Christmas day.

I received this book as an eARC from the publisher and NetGalley in exchange for my honest review".





sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A história da menina que era alta como uma estaca

Shelagh Inglesby



Ai, quem de nós nunca teve estas crises na (pré-)adolescência? Por se achar demasiado alta, demasiado baixa, demasiado pálida, demasiado corada, com cabelo demasiado liso ou com caracóis a mais, demasiado gorda, demasiado magra... sempre achávamos que tinhamos algo em demasia ou de menos...na idade em que ainda não sabemos quem somos e embora o espelho seja, como sempre é, sincero, os nossos olhos apenas vêm as nossas inseguranças. A boa notícia é que isso passa! :) Não passa?



Alta como uma estaca

Alexandra arranca os ganchos coloridos do cabelo preso e solta-o.


Nem aos ombros lhe chega. Não é comprido nem curto nem nada bonito.

- Buu!! - Alexandra faz uma careta para a sua imagem no espelho. O cabelo faz lembrar as repas do seu cão Bitó.

A um galgo até ficam bem. A Alexandra, não.

Nem sequer tem uma cor definida o cabelo de Alexandra. Não é loiro nem castanho. Está entre loiro-escuro e castanho claro.

Furiosa, Alexandra agarra no sabonete molhado que está pousado em cima do lavatório e besunta o espelho todo com riscas cor-de-rosa diagonais, sobre a imagem da sua cara.

Alexandra não se suporta a si própria.

Nem aos seus olhos azul-pálido.

Gostava era que fossem castanho-escuro, como os da Manuela, a vizinha do lado.

Pior do que as repas à cão e dos olhos azul-claro é a sua altura. É um palmo mais alta do que o maior rapaz da turma. Ainda ontem o pai tornou a dizer:

- A Alexandra cresce como um pé de feijão: cada vez mais!

E o que hão-de dizer os parentes que não vêem Alexandra há muito tempo?

- Meu Deus! Cresceu tanto! Daqui a pouco estás maior do que nós!

Ainda bem que não dizem:

- Olá, girafa, como estás!?

Durante a noite, Alexandra sonha que tem uns pés muito pequeninos e umas pernas curtas, mas um pescoço enorme, enorme como um campanário e, bem lá no cimo, balança uma cabeça pequena. Vê-se a correr por uma praça fora com muita gente atrás dela, mas não consegue esconder-se em lado nenhum.

O pior é quando recebem visitas que nunca tinham visto Alexandra.

- Aah! - costumam dizer à mãe, e depois fazem uma pequena pausa. - Então esta é que é a tua filha!...

E soa como se dissessem: então este é que é o camelo de quem se fala na família e entre os amigos.

Alexandra exagera um bocadinho. Como não gosta de si, põe na boca dos outros a ideia que tem de si.

É certo que Alexandra é alta para a idade, mas não é uma girafa, um camelo ou um dinossauro. Dinossauro, inventou-o ela agora mesmo.

E hoje gostava de estar especialmente bonita. Para o engraçado do tio Ralph que, passados quatro anos, os visita de novo em Viena. O tio Ralph vive em Londres e está casado com a irmã da mãe.

Mas, quando vir Alexandra, também ele vai, com certeza, dizer:

- Então esta é que é a pequena Alexandra?

Ela não tem nada de que se possa gostar à primeira vista. Não é pequena nem graciosa como a Manuela do lado. Não tem olhos escuros nem cabelos bonitos como os da Manuela, castanhos cor de avelã. Alexandra é um feijão e os feijões não são dignos de apreço.

Para além do pai e da mãe, mais ninguém é carinhoso para com um feijão. Alexandra vê muito bem a diferença de trato em relação à Manuela do lado. Se cá vem quando estão com visitas, as visitas ficam logo com os olhos a brilhar, embora ela nem pertença à família.

Abraça-se a Manuela, até se lhe faz festas no cabelo e pergunta-se-lhe o nome, como se isso fosse de uma grande importância.

Na semana passada, na aula de Desenho, Alexandra teve de fazer um auto-retrato, mas a folha era muito pequena. Começou em baixo, com os pés, e ainda só ia na testa quando o papel acabou, em cima. Já não houve espaço para o cabelo, e assim teve de ficar careca.

De algum tempo para cá, adoptou uma má postura: um pouco inclinada para a frente, os ombros ligeiramente encolhidos, as costas um pouco curvadas. Nesta posição, Alexandra parece uns bons dois centímetros mais pequena do que aquilo que realmente mede.

Quando, na aula, é chamada ao quadro, encolhe ainda um pouco a cabeça e avança com a nova postura de "dois centímetros a menos". Corada, à frente do quadro preto esverdeado, sendo a única de pé no meio dos outros vinte e três colegas sentados, parece-lhe ser maior do que nunca. Por isso, dobra ainda imperceptivelmente os joelhos, o que lhe retira mais meio-centímetro.

O meio-centímetro faz muito bem à auto-estima de Alexandra.

A mãe põe a mesa para a chegada do tio Ralph.

- A Manuela não pode vir cá hoje, quando o tio Ralph cá estiver! Pelo menos hoje, queremos estar a sós com ele - diz Alexandra.

A mãe tira uma pétala amarela a uma rosa.

- Também acho melhor assim. Agora que o Ralph acaba de chegar. Mas diz lá. - a mãe vira-se para Alexandra. - Discutiste com a "Manni"?

- Não. sim. -- Alexandra não quer, de modo nenhum, revelar o verdadeiro motivo: a Manuela tem os olhos castanhos-escuros e o cabelo cor de avelã e é pequena e delicada. O tio Ralph nem devia vê-la à frente. Pelo menos, por enquanto.

- É grave? - pergunta a mãe. - A Manni é sempre tão querida. O que é que se passa entre vocês as duas?

- Ah, não é nada - abandona a sala apressadamente.

"Manni" . Aqui está outra coisa enjoativa. "Manuela" é muito mais bonito do que aquele diminutivo, que é mesmo estúpido. Ainda assim... "Manni" é um nome carinhoso, uma coisa para meninas pequenas, queridas, delicadas.

Só os pais é que a tratam por "Xana". Mais ninguém se lembraria de lhe dar um nome pequeno. Um nome comprido, com imensas letras, assenta como uma luva a um longo pé de feijão.

- Põe os ganchos do cabelo - aconselha a mãe, assim que a filha volta à sala. - Pelo menos os cabelos parecem em ordem. Se o avião de Londres tiver aterrado a horas, o pai pode chegar aí com o tio Ralph a qualquer momento.

- Com os ganchos fico mal!

De repente, sente os olhos marejados de lágrimas. A mãe não dá conta porque está de costas, a pôr a mesa. De repente, Alexandra ganha raiva também à mãe, que põe a mesa, que dobra os guardanapos em leques azuis-claros e que arranja as flores da jarra para que pareçam bonitas, vistas de qualquer lado.

"Bem posso compor-me quanto quiser", pensa Alexandra. "Com ou sem ganchos fico sempre sem graça nenhuma."

Olha! Aquela é a voz do tio Ralph, com o seu inglês engraçado, todo enrolado. A porta vai abrir-se a qualquer momento.

Alexandra corre para a casa de banho, pega nos ganchos em forma de rosa e prende-os no cabelo, de ambos os lados.

Ao menos os ganchos são bonitos!

- Olá! - grita a mãe abraçando o cunhado.

O tio Ralph pousa a pesada mala preta, deixa descair dos ombros o saco de desporto de onde sai uma raquete de ténis.

- Great to be back home - exclama, como se a sua casa fosse ali e não em Inglaterra. Com o Tio Ralph, uma pessoa sente-se logo à vontade! Ri muito e sabe montes de boas anedotas. Até anedotas para crianças.

Está moreno e, com o bigode crescido dos lados, até se parece um pouco com um leão-marinho.

Alexandra observa o tio Ralph do vestiário, onde se escondeu até se decidir a ir cumprimentá-lo. Dantes, quando era pequena, corria para ele de braços abertos.

Hoje, não está para corridas. O tio Ralph ainda se assusta se vê uma coisa tão alta a correr para ele.

Um pé de feijão não corre.

- And where is little Alexandra?- pergunta o Tio Ralph, procurando-a com o olhar à sua volta.
Alexandra estremece.

- Bem - diz o pai, não sem orgulho. - Até vais admirar-te. Da little Alexandra fez-se uma grande Alexandra. Espero, caro Ralph, que, a partir de hoje, fales alemão! O meu inglês não vai além de good morning e good evening.

- Okay! Então, onde está a Alexandra? - a forma como o tio pronuncia soa a "Aleksandruá"!
Devagarinho, Alexandra sai da meia-escuridão e dirige-se ao tio na sua postura de "dois centímetros e meio a menos".

Ele abre os braços cheio de uma alegria efusiva. É bonito porque o Tio Ralph "esmaga-a" exactamente como dantes.

- My goodness! - espanta-se. - What a big girl! Mas que grande rapariga tu ficaste!

Os cantos da boca de Alexandra encolhem-se e descaem.

- Like a manequim!! - acrescenta o tio Ralph radiante.

Da forma como o tio pronuncia a palavra estrangeira, ela não pode significar nada de feio. Nenhuma girafa, nenhum dinossauro.

Ele diz: "man'cã" e pronuncia as últimas sílabas pelo nariz como se estivesse constipado.

A mãe ri porque reparou na expressão de surpresa e confusão de Alexandra.

- Manequim é uma palavra francesa - explica. - Já te contei uma vez que a minha irmã Deborah fazia desfiles. Era manequim.

- Ah! - diz Alexandra.

Antes de poder continuar a falar, o Tio Ralph fá-la girar sobre si mesma, observa-a de todos os lados e prega-lhe na testa um beijo áspero por causa do bigode.

- Asseguro-vos - repete - que vai ser igualzinha à minha Deborah. Até tem os mesmos olhos claros! Beautiful blue eyes!!

Alexandra fica espantada. Que surpresa! Abre bem os olhos azul-água porque assim parecem mais azuis e de certeza que ficam mais bonitos.

O pai dá pancadinhas na cara da filha. É o que faz quando está orgulhoso dela, mas Alexandra não suporta aquilo. Já não é nenhum bebé. E agora muito menos.

É uma futura manequim.

- Bem, e agora vamos merendar. Tens de descansar da viagem - diz a mãe.

- Anda cá! - o Tio Ralph chama Alexandra com um gesto. - Senta-te à minha beira!

Durante a merenda, Alexandra desabrocha como um pé de feijão, que cresce muito direito, com muitos rebentos brancos. Alexandra sente-se outra.

O tio Ralph segura-lhe na mão o tempo todo, excepto quando empurra com o polegar um pedaço de bolo para o garfo.

- Lá - diz, referindo-se a Londres - muitas raparigas são altas. Altas e elegantes como Alexandra, mas não tão bonitas! - e pisca o olho esquerdo. - Mas os vienenses são todos uns arõezinhos!

- Anõezinhos - corrige-o o pai.

Depois do leite achocolatado, Alexandra levanta-se e dirige-se ao quarto de banho, de costas direitas, ombros direitos e com os seus dois centímetros e meio novamente recuperados.

Vai direita ao espelho e apaga, com uma toalha húmida, as riscas de sabão.

O reflexo de Alexandra no espelho vai-se tornando mais nítido. Vê os seus olhos azul-água e sorri, radiante, para a sua nova imagem.

Alexandra tira os ganchos do cabelo. Não precisa deles. Assim também é bonita.

O tio Ralph foi muito, muito simpático para com ela, segurou-lhe na mão e disse-lhe que era bonita. E em Londres toda a gente é alta. E elegante.

"Afinal", pensa Alexandra, "sempre vou dizer à Manuela que venha cá hoje."



Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
Munique, DTV Junior, 1990
(Tradução e adaptação)

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