segunda-feira, 25 de junho de 2012

Quatro poemas de gatos de Ferreira Gullar


Emile Munier, c. 1895




Gato pensa?



Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?



A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.



E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.



Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.



E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?





O ron-ron do Gatinho



O gato é uma maquininha

que a natureza inventou;

tem pêlo, bigode, unhas

e dentro tem um motor.



Mas um motor diferente

desses que tem nos bonecos

porque o motor do gato

não é um motor elétrico.



É um motor afetivo

que bate em seu coração

por isso ele faz ron-ron

para mostrar gratidão.

(...)







Na cara



Gatinho, pra me acordar,

Não fica miando a esmo:

Mia bem na minha cara

Para ver se eu acordo mesmo.







Dono do pedaço



Para qualquer outro gato,

Gatinho não dá espaço.

Em nossa casa ele impera

– é o dono do pedaço.



Certa vez uma vizinha

– que era de fato uma tia –

pediu pra deixar seu gato

connosco só por um dia.



Mal o gato entrou na casa,

Gatinho se enfureceu,

pulou em cima do intruso

que, assustado, correu.



Gatinho saiu-lhe atrás

aos tabefes e às unhadas,

correram os dois pela casa

na mais louca disparada.



No quarto, em volta da cama,

por baixo e por cima dela,

rodaram como foguetes,

sumiram pela janela.



Só depois de muito esforço,

pude conter o Gatinho,

enquanto o outro fugia

pro apartamento vizinho.



Assim acabou-se a guerra

que me serviu de lição:

proíbo a entrada de gatos;

só gatas têm permissão.


Ferreira Gullar

1 comentário:

  1. Belos poema... adorei-os pois também tenho cá meus gatos e são eles assim.. Um poema de gratidão.

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